Há algumas décadas, surgiu na América um guru que incentivava os seus discípulos à pratica do suicídio como forma de alcançar o “paraíso”. Fora de si, essas pessoas “orientadas” seguiram a cartilha de seu guia e modelo: desistiram, então, da experiência terrena, retornando ao mundo espiritual na posição de suicidas. Após a catarse, certos curiosos, perplexos, perguntaram ao “religioso” o motivo dele não fazer o mesmo, a reposta foi sintética: – Alguém precisa ficar aqui (na Terra) para orientar. Esse caso é extremo, porém serve como referência à análise.
É fundamental ter muito cuidado com esses falsos líderes que se arvoram em representantes de Deus, ministros da fé e, no intuito de dar validade à ideias doentias, violentam consciências, insufladas por fantasias, incompatíveis com a infinita bondade do Senhor.
A vida é cheia de turbulências, e diversos sacerdotes (em grande parte das religiões!) reconhecem esse cenário de dor e aproveitam-se do sofrimento alheio para obter vantagens, fazer promessas injustificáveis e disseminar o medo. No século XXI, não deveríamos mais cair em tais armadilhas. Independente da religião particular de cada um, os homens já possuem suficiente repositório de informações espirituais para guiá-los no caminho do bem.
Com a experiência da cruz, o Cristo – no templo da Natureza, em meio aos necessitados de toda ordem – ensinou à Humanidade que, nas derrotas da vida, encontram-se as lições mais preciosas para o Espírito imortal. Vezes múltiplas, consideramo-nos fracassados, mas espiritualmente estamos ganhando, construindo “por dentro”. Nisto, reside o processo de educação do sentimento – o maior patrimônio da alma.
Por hábito, temos nos acostumado com líderes religiosos que mandam fazer e apontam o dedo em certa direção, contudo se observarmos a vida deles, veremos o caos: são personalidades que pregam uma coisa, e vivem outra. Num exame, com carinho e certa dose de razão, concluiríamos, prudentemente, em seguida: “eu não quero tanta hipocrisia, angústia, conflitos e inimigos para mim. Chega de tomar tóxico intelectual como se fosse mel”.
Sem dogmatismo, ao olharmos o exemplo de Jesus, veremos que ele jamais mandou ninguém fazer nada, antes de ir à frente para mostrar o caminho. No Monte das Oliveiras, quando Pedro empunhou a arma para defendê-lo, cortando, assim, a orelha do soldado romano, o Divino Amigo orientou-lhe: “Simão, embainha a tua espada”.
Para aqueles que se dizem seguidores de Jesus é, no mínimo razoável, o esforço para transformar o Evangelho em livro da vida e pô-lo em prática. O Cristo é um libertador de consciências, ao lado dele, aprenderemos, todos os dias, o prazer de servir, a alegria de ter amigos, as bênçãos do amor, as luzes da humildade, a paz da mansidão, a recompensa íntima da brandura e o júbilo eterno de se pagar o mal com o bem.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Religião, ciência, espiritualidade e materialismo...
Enquanto muitos gritam "meu Deus", Jesus – sem fundar religiões – nos ensinou o "Pai Nosso". Alheio à lei de solidariedade que rege todos os fenômenos da vida: dos seres microscópicos ao movimento das mais belas galáxias, o homem, até hoje, tenta entrincheirar Deus nos limites de um livro, de tribos e templos. Vivemos egoisticamente como se fôssemos privilegiados perante o Todo-Sábio. Adoramos ser "os eleitos", "os escolhidos", "os ungidos", mesmo, ainda preguiçosos, para carregar um brilho de amor no coração. Por agirmos assim, louvando a Deus dentro de construções de pedras, e ignorando-O nas ruas, temos "naufragado mil vezes".
Em nome do Cristo e de outros, já produzimos guerras, fome e doenças. Há gente empunhando armas, “a mando de Deus”, como se pudessem agradá-Lo, importunando a Sua magnífica obra. Daí, nas palavras indignadas de Charlie Chaplin "um homem que mata outro homem é um assassino, mas o que mata uma multidão é considerado herói". Deve ter algo de errado nisso, não na primeira oração, mas na segunda... Tem sempre uma massa chorando, e alguém vendendo lenço. O ódio, o preconceito e o desejo de vingança estão cercados de interesses escusos. Se a brutalidade social, financeira e política fosse ruim para todo mundo, o terror já teria acabado. Logo, é verossímil pensar que há gente se regozijando com o sofrimento alheio.
O materialismo invadiu os sistemas econômico, educacional e também as religiões. A Humanidade, por acreditar, séculos e séculos, nele criou um modelo cruel de sociedade. A ciência e a religião se afastaram como se ambas fossem forças contrárias. Nos templos, surgiram fanáticos que para defender leituras fundamentalistas contrariam, até agora, as Leis da Natureza, alimentando mistificações; por outro lado, nos laboratórios, os cientistas, em vez de se reconhecerem como reveladores das leis naturais, intitularam-se, cheios de soberba, em filhos do “acaso” – o mesmo que manteve “o equilíbrio da nebulosa terrestre, destacada do núcleo do Sistema Solar, conferindo-lhe um conjunto de leis matemáticas, dentro das quais se iam manifestar todos os fenômenos inteligentes e harmônicos de sua vida, por milênios e milênios” (Emmanuel, em A Caminho da Luz). Ou seja, um efeito de incomensurável sabedoria produzido pelo “nada”.
Os cientistas são, em verdade, “sacerdotes do Espírito”, mesmo à revelia, trabalham para o Criador. Obedecendo à Lei de Progresso, missionários da Física, da Astronomia, da Química, da Paleontologia e de tantas outras áreas encarnam no planeta a fim de contribuírem para a evolução do pensamento intelectual e da compreensão dos mecanismos que regem a vida orgânica. Mas, a ciência não tem a última palavra, ela avança conforme as suas possibilidades no tempo e no espaço. Nenhuma revelação vem antes da hora, porque sabem as inteligências diretoras do nosso orbe, que um foco de luz intenso pode cegar, ainda mais, as crianças espirituais que somos.
Todavia, hoje já é possível perguntar aos que se intitulam materialistas: de que matéria você está falando? Como diz Emmanuel, “o materialismo se esvai por falta de matéria”. Niels Bohr, Max Planck, Heisenberg – patriarcas da Física Quântica – através de seus experimentos, observaram um átomo de hidrogênio com o seu núcleo e um elétron girando em torno dele. Viram, então, algo como uma bolinha de gude colocada no centro do gramado do Maracanã, representando o núcleo, e um grão de poeira na cadeira mais distante, sinalizando os movimentos do elétron. Desta forma, concluíram que existe mais espaço do que matéria "sólida".
Neste cenário, no início do século XX, Einstein briga com a Física Quântica por rejeitar a Teoria do Éter ao considerá-la "mágica". Apesar das dissensões, ambas as correntes passam a trabalhar, mesmo a contragosto, em sistema de cooperação. Einstein, a seu turno, dá prosseguimento à descoberta de Maxwell e diz que luz é matéria, uma vez que, nela, identifica massa – corpúsculos que o gênio chamou de fótons. E as ondas eletromagnéticas? Bem, são responsáveis por conduzir esses corpúsculos. Muitos físicos clássicos se abismaram: como alguma coisa pode ser onda e matéria ao mesmo tempo? Fizeram uma experiência e comprovaram.
Vem, pois, Max Planck e diz, aprimorando o raciocínio de Einstein: “Se luz é matéria, matéria também é luz”; isto é, da mesma forma que ondas eletromagnéticas se comportam como matéria, átomos também se comportam como ondas. Einstein não aceitou.
Niels Bohr fez, então, a seguinte experiência: preparou um anteparo e nele jogou elétrons. E, assim, pensou - "nos lugares onde houver buracos, os elétrons vão passar, onde não houver, eles vão bater e voltar". O que aconteceu? Todos passaram. O elétron se comportou como onda. Alguém, em seguida, teve a ideia de retirar o anteparo e fazer um elétron se chocar com outro. E aí, ele se comportou não mais como onda, e sim, como partícula. O elétron é matéria ou energia?
O elétron é, ao mesmo tempo, partícula e onda. A natureza dual da matéria. Quando se coloca um desafio de partícula, ele vira partícula; se é colocado um desafio de onda, ele vira onda. Mas, suponhamos que ninguém olhe ou imponha desafios ao elétron, o que aconteceria? Os cientistas intuíram que o comportamento do elétron dependeria da observação; ou seja, aquilo que era tido como absolutamente objetivo passou a depender do ponto de vista do observador. Quem vê interfere no objeto observado e pode ver, inclusive, aquilo que quiser. A Física Quântica chegava no "pedi e obtereis", "buscai e achareis", "batei e abrir-se-vos-á" ( Jesus).
Einstein, depois, cria a equação basilar da Teoria da Relatividade: Energia=matéria. No plano material, pensava-se que a velocidade da luz era a mais rápida condutora de partículas, todavia, na realidade do átomo, a Teoria da Relatividade não funciona. Heisenberg descobre, adiante, que se tentasse medir a velocidade do elétron, ele não conseguiria saber onde o elétron está, e se tentasse saber onde o elétron está, ele não conseguiria saber a velocidade do mesmo. A trajetória do elétron é, até agora, indecifrável. Nasce, portanto, o Princípio da Incerteza. Einstein não aceita e, pela sua visão de um Deus do século XIX, diz que o Criador não joga dados com o universo e afirma que, se o Princípio da Incerteza estivesse certo, a informação seria transmitida milhões de vezes acima da velocidade da luz, contrariando a nossa ideia de espaço. Em verdade, a Teoria da Relatividade explicava a gravidade, mas não explicava nada sobre o átomo.
Em 1982, tentam fazer o “emanharamento quântico” – unir dois elétrons. Quando um elétron gira para direita, o outro gira para esquerda. Se um muda a sua posição de giro, o outro muda também. Na trajetória, eles se encontram. Como um elétron fica sabendo da mudança do outro? A luz, por exemplo, demora algum tempo para chegar em Siriús, levando-se em conta sua trajetória e distância. O elétron não. Se estiver conectado com outro, qualquer mudança, aqui, repercute no outro em Siriús. Conexão que não respeita espaço. Na Física, recebeu o nome de "conexão não local", feita numa velocidade bilhões de vezes maior do que a da luz. Solidariedade é, portanto, uma lei da Física. Como Deus seria Onisciente e Onipresente se houvesse espaço para Ele? O Criador sempre chegaria atrasado – o que não é o caso.
Como se vê, “lei divina e lei natural são a mesma coisa”. Estudar o Evangelho e os elementos da tabela periódica é o mesmo que estudar Deus. Estamos mergulhados no Fluído Cósmico Universal – a matéria-prima do pensamento divino, segundo André Luiz – e Nele vivemos e nos movemos, como peixes no oceano (Paulo de Tarso).
Fica a pergunta: por que tanta intolerância se a solidariedade é um impulso da Natureza, e a matéria, transitória, já dá indícios da vida extrafísica?
domingo, 5 de abril de 2015
O Evangelho é trabalho com mãos próprias
Atormentado pelas
aparentes derrotas da vida, o homem maldiz a própria sorte, nem que seja no
primeiro lampejo do pensamento, ato contínuo à apresentação de qualquer
problema, novo ou velho. A atitude viciada, apesar do fator de desequilíbrio, é
normalíssima se levado em conta o estágio dos espíritos encarnados na Terra.
Por hora, enamoramos a fé que nos impulsiona às conquistas de títulos
acadêmicos, honrarias diplomáticas, glórias industriais e aplausos midiáticos;
todavia, a fé de origem divina, capaz de produzir pérolas da caridade,
conhecemo-la, tão-somente, através de flertes.
Sentindo-se traída pelo destino, a criatura
ignora a árvore frondosa, da qual sempre se alimentou, para reclamar, aos céus,
do primeiro fruto ruim que acaba de colher. Por isso, exorta-nos Emmanuel a
observar "as vozes inarticuladas da vida", cujas mensagens sublimares
são recitadas, a cada milésimo, pari
passo, ao relógio incansável da Natureza. Todos os elementos da criação
infinita (no espaço ou na Terra) dão exemplo de vida, pois cada um, em modo
particular, entoa o versículo evangélico, que os corações do mundo ainda não
compreenderam: "Eu não vim para ser servido, mas para servir"(Jesus).
Esperando uma salvação,
de fora para dentro, o homem põe, novamente, o peso do madeiro da cruz sobre os
ombros do Cristo e nega-se ao serviço de elevação da alma. O religioso assim
age por acreditar que foi criado sob o rótulo do pecado e há 2015 anos,
Jesus o redimiu de algo que o homem – da atualidade – não poderia ter culpa.
Daí, muitos cristãos, sob os auspícios do dogma, condenam a assertiva:
"fora da caridade, não há salvação" e fazem do Evangelho um artigo
qualquer, sem notar que o documento divino, de tão fundamental, foi assinado
pelo autor com o seu próprio sangue. Em sua humildade celestial, o Notável Rabi
da Galiléia pediu aos seus discípulos a divulgação da Boa Nova, e não, que
saíssem, pelas vielas da vida, exortando o sofrimento do calvário. Ao ser
perguntado pelos fariseus, quando viria o Reino de Deus, Jesus os respondeu -
"O Reino de Deus não vem de modo visível (Lucas. 17:21), nem lhe dirão:
"Vede aqui ou ali, pois o Reino de Deus está dentro de vós (Lucas. 17:22).
Os fariseus, doutos da linguagem
materialista, não concebiam uma mensagem puramente espiritual. As parábolas do
Cristo careciam, para eles, de argamassa a
fim de que pudessem juntar as pedras e inaugurar a fortaleza divina; o recado,
de tão sutil, porém, passou despercebido pelos corações, conclamados a edificar
"no templo interno abandonado – a mais alta de todas as capelas".
(Auta de Souza, a poetisa do Evangelho, por Chico Xavier).
quinta-feira, 12 de março de 2015
Luz: a bagagem espiritual que a alma revela
Choramingando,
Amanda foi pedir “bênção” ao vovô que estava no toco. Com a toalha do pescoço,
ele enxugou, delicadamente, as marcas do dolorido pranto. A menina, ajoelhada,
abraçou a notável entidade e deixou transparecer a enorme mágoa, acumulada no
coração. Antes de qualquer palavra, o Velho utilizou a fumaça perfumada do seu
cachimbo como valiosa terapia magística, para acalmar os nervos à flor da pele.
Após o passe, a voz – que era trêmula –
ganhou certa firmeza e deu vida as primeiras palavras:
– Vovô, um irmão do terreiro me ofendeu, e a
pedrada foi tão brusca que parece ter aberto, em mim, uma ferida de morte. Ele
espalhou mentiras a meu respeito e, neste momento, todos olham, em minha direção,
com desconfiança.
–
Filha, disse o Velho. – O ato de julgar é cometido por Espíritos muito
infelizes. Sufocados pelos próprios melindres, eles atacam a fim de manter os
desavisados do caminho no mesmo patamar que o deles. Se você quiser, achará mil
razões para o revide. Mas, a partir do momento que reconhece a divindade de um Mestre,
o pupilo deve acompanhá-lo. Entre a sua visão limitada e a de Oxalá, fique com
a segunda, pois: “com a medida que medirdes, vos medirão
também”.
Para melhor exemplificar a lição, o Pai Velho estalou os dedos sobre a
cabeça da médium e lhe recomendou:
– Olhe, apontando para dois irmãos
do terreiro, devidamente, vestidos de branco. – O que você vê?
Amanda descreveu fisicamente as
pessoas. O Preto-Velho repetiu o gesto de sua mironga e reforçou o pedido.
Quando a menina observou, novamente, os dois companheiros, não soube explicar
exatamente o que via. Em verdade, deixara de enxergar, apenas, o corpo
material, ornamentado com belas contas e roupas impecáveis na higiene.
Bondoso, vovô organizou-lhe
as idéias:
– Agora, você também enxerga através dos olhos
da alma. Com permissão do Alto, ativei a vidência, peculiar a sua mediunidade.
Feito o devido esclarecimento,
Amanda descreveu, no que pôde, aspectos da aura de seus irmãos.
– Vejo,
na testa do primeiro, um ponto de belíssima luz; e ao redor do outro, noto
algumas sombras.
– Qual a posição que esses dois homens ocupam na Casa?, perquiriu a
entidade.
– Pelo que sei o primeiro está aqui há anos e
participa da maioria dos trabalhos, e o segundo chegou faz pouco tempo.
– Isso, minha filha - sintetizou o Guia, - comprova que há diferentes
graus de espiritualidade. A sombra e a luz demonstram o estágio de cada
Espírito observado. O religioso não deve acumular horas dentro dos centros,
como se a Umbanda fosse um curso que oferece diploma. Às vezes, a presença é
enorme, e o aprendizado, minúsculo. Acredita em Deus, pois nenhum homem, na Terra,
pode frear a sua escalada divina. O irmão que lhe calunia também carrega muita
escuridão. Mesmo a distância, cuide das feridas dele e siga o trajeto do vôo
que você tem direito. Para alma doente, acostumada a ferir, não existe nada
superior do que o curativo de uma vítima.
Chico, o menino e o trem
Ah, a santa paciência! Pelo exemplo dos que já são íntimos de tamanha virtude, vem o convite amigável para que ingressemos nesse terreno de bondade: a esfera daqueles que aprenderam a esperar pelo próximo.
Viagem perdida?
Conta o ditado popular que o mineiro nunca perde o trem. Mas, naquele dia, foi preciso quebrar a máxima. E era por uma boa causa.
Chico Xavier encontrava-se, na estação, à espera da locomotiva, já em atraso. Ansiosa, a meiga alma fitava o relógio. Não queria perder o compromisso. Eis que a máquina encarrilhada veio, ao longe, dando o ar de sua graça; e ele, antes afoito, respirou aliviado. O embarque era certo. Quem se atrasou foi a lotação. O passageiro, pontualíssimo, não tinha nada com isso. A reunião corria riscos de ser perdida diziam os ponteiros do tempo, contudo o trem... Jamais!
Será?
Com o pé ‘quase’ dentro do vagão, o médium inesquecível ouviu o chamado de uma criança: - Chico! Chico! Chico!...
Quanta dúvida! Atenderia o pequenino ou subiria na máquina a vapor, a apressada da vez?
O coração delicado do notável mineiro não resistiu. O jogo de paciência para seguir viagem foi ignorado. O apelo do menino de 5 anos falou alto na harpa dos sentimentos de quem sabia recitar, com gestos, o verbo amar, muito mais do que, apenas, conjugá-lo de maneira automática. Ocorreu, então, o abraço. A criaturinha chorou, dizendo que o amava. Deu beijos. Pediu autógrafo. A mãe, enternecida, agradeceu. Contou também de sua admiração e, após breve diálogo, seguiu o seu rumo com o filho ao lado.
Passada a cena, vivida em plenitude, Emmanuel surgiu.
– Como vai, Chico?
– Perdi o trem, respondeu o inquerido, sorrindo.
O venerável mentor assim falou:
- Perdeu o trem, é verdade, mas ganhou saúde para a próxima década. Se você prestasse atenção, veria a irradiação luminosa com que aquele menino lhe envolveu. Do coração dele saiu uma dose de amor tão vasta que as células do seu corpo físico e o tecido sutil do seu perispírito se beneficiaram imediatamente.
Naquele dia, Chico Xavier aprendeu que perder o trem não era tão ruim. Aliás, ele não perdeu. Deixou que passasse por um serviço divino. Fica, então, a pergunta: e nós, o que temos adiado para atendermos o outro ou observarmos a vida? A criança que sorri, à tarde, pode fechar os lábios no romper da noite. A flor linda, no alvorecer, talvez, recolha-se na despedida do sol. O perfume exalado agora... Em instantes, o vento leva. E a tristeza, se não consolada hoje, arvora-se em depressão no amanhã.
É, pois, a beneficência a ‘ciência de fazer o bem’. Uma ciência tão importante que, no ato de doação incondicional ao semelhante, o nosso sistema celular, devido à elevação dos pensamentos, produz fótons (átomos de luz) que ‘higienizam’ o organismo, livrando-o da carga excessiva de toxinas e de outras mazelas, atreladas, há muitas encarnações, ao corpo espiritual.
Como diria João Evangelista: "Só o amor...".
Como diria João Evangelista: "Só o amor...".
O bispo e a Boa Nova
Assisti, com alguma dose de preocupação,
ao vídeo em que jovens da Igreja Universal do Reino de Deus apresentam-se
perfilados, entoando saudações, devidamente ensaiadas, aos maldes de um
quartel. Os religiosos noviços traziam consigo, para unidade da causa, o título
de “Guardiões do Altar”. Devido aos comentários temorosos quanto ao possível
recrudescimento do fundamentalismo teológico, a nota explicativa da organização
religiosa alegou que a reunião do citado grupo tem, por objetivo, a formação de
novos pastores. Muitos duvidaram.
Faz sentido o grau de desconfiança,
obviamente, sem os exageros da discriminação. Clima militar não combina com
fraternidade espiritual. O roteiro do cristão é o Evangelho. Guarda-se das
tormentas mundanas o mais sublime dos altares, a alma humana, com o trabalho
valoroso da caridade. Não há preparação maior para enfrentar as intempéries do
caminho do que o exercício da compaixão. Como bem disse o benfeitor Emmanuel:
“o exercício do amor sincero jamais cansa o coração”. Se a juventude, em cena,
almeja uma forma física exuberante que lhe dê fôlego para o serviço
beneficente, é importante que ela não olvide a necessidade primeira de se
consultar os níveis de bondade já adquirida. Porque não é pela ausência de
condicionamento atlético e regimes doutrinários que os religiosos de todos os
tempos têm desfalecido nas estradas apostólicas. Em verdade, caem, um a um, por
não alcançarem o oxigênio divino, acessível, acima de tudo, aos espíritos
amorosos.
Inegavelmente, o bispo Edir Macedo construiu
verdadeiro império com o ouro da terra. Tornou-se sacerdote das multidões. Voz
respeitada pelos fiéis de sua agremiação. Criatura, às vezes, ubíqua em virtude
da capacidade de espalhar o seu pensamento por diversos templos do globo.
Entretanto, como todo líder popular, divide opiniões. No caso dele de maneira
peculiar, pois tem a capacidade de cegar os dois lados da trincheira com o
mesmo veneno: o ódio. Tanto daqueles que o defendem e o remuneram quanto dos
que o execram e desejam vê-lo tombar.
As civilizações multimilenárias trazem
impressas em suas histórias a queda de fortalezas, pretensamente,
inexpugnáveis. Todo tesouro reunido à custa da exploração da ignorância e do
sofrimento alheio desbota pela ação magnânima do tempo. Seria maravilhoso que o
referido bispo converte-se, de fato, ao Cristianismo. Inegavelmente, ele tem o
mérito da oratória e um grande poder de convencimento. Não à toa, reuniu
numeroso rebanho, que tem “olhos de ver” e “ouvidos de ouvir” para tudo aquilo
que ele mostra ou diz. Neste século, já não há espaço para brigas entre o “o
meu deus” e “o seu deus”. Os discípulos, cujo Mestre disse que seriam conhecidos por muito se amarem, deveriam
observar na figura sacerdotal de Edir Macedo um potencial divulgador da Boa Nova.
Homens poderosos e doutores do papel do mundo já se
curvaram diante da mensagem imortal do Cristo. Por maior que seja a experiência
farisaica do espírito, não se conhece, nas realidades espirituais do Cosmo, uma
alma que seja intocável pelo Evangelho.
Reúnam-se beneméritos da filosofia, prêmios
Nobel, arautos da diplomacia, estadistas eméritos, e todos eles, mesmo com o
cabedal que os referencia, podem menos do que um coração, verdadeiramente,
evangelizado. Não tropecemos no erro de que para exaltar a Deus devemos apequenar
os homens. A melhor maneira de se enaltecer a sensibilidade de um músico é o elogio
a sua canção; a forma mais significativa de se reverenciar a destreza do pintor
é o apreço pelas suas telas, e o ato de real valor para o poeta é o elogio à
beleza de suas poesias. Vai-se à essência do artista pelas vias de sua própria
arte. Somos nós, em escala infinitamente superior, a canção, a tela e a poesia
de Deus. Um Excelso Criador não faz obras ruins.
Se a igreja é do Reino de Deus, Jesus – que
tão bem falou sobre a construção deste reinado – não pode ficar do lado de fora
da casa, porque, no interior, os corações desconhecem que o amor resume toda Lei e os profetas. Justamente, por esse sentimento glorioso, é
que o bispo seria muito bem-vindo à causa evangélica. O exemplo dele se
refletiria sobre os seus seguidores. O arrependimento impulsiona o espírito.
Logo, ao observarem o Templo de Salomão, iriam se lembrar da modesta morada de
Simão Pedro, que serviu às pregações do Messias; ao levantarem qualquer
instrumento capaz de ferir o semelhante, ouviriam a sentença magistral
proferida no Monte das Oliveiras – “embainha a tua espada” e; por fim, na
perseguição e caça do direito inalienável à liberdade de crença, em nome de
religiões dominantes, reviveriam o monólogo de Damasco: “Saulo, Saulo, por que
tu me persegues?”.
"Guarda o seu cheque"
Ouvi esta história numa palestra, guardei-a com muito zelo devido ao teor precioso da mensagem e, agora, quero dividi-la...
Uma lição espiritual
Um homem, angustiado, esperava o fim da reunião mediúnica na porta de um centro, em Minas Gerais. Mantinha certa distância para não ser notado. Queria uma conversa particular. Quando os confrades de seara espírita foram embora pouco a pouco, ele aproveitou a oportunidade e se aproximou de um certo médium:
- Por acaso, o senhor é o Chico Xavier?
- Sou eu sim, meu filho, respondeu a afável voz. - No que posso lhe ajudar?
- Eu quero uma daquelas cartas que o senhor recebe. E é do meu filho, que morreu.
Mansamente, Chico o esclareceu: - O telefone toca de lá (do Alto) para cá (a Terra). Eu só atendo.
O homem ficou nervoso, retirou do bolso um talão de cheque e uma caneta para, em seguida, disparar:
- Quanto você quer? Diz que eu pago!
Chico calou-se.
Compreendendo a gravidade da situação, Emmanuel apareceu:
- Meu irmão, você está equivocado. O seu filho se suicidou em cima de uma motocicleta, porque você não o ensinou o valor do dinheiro e nem o do trabalho. Sempre deu tudo o que ele queria, sem impor limites. Agora, você processa o caminhoneiro, que se envolveu no acidente, mesmo sabendo que o seu filho foi o culpado por dirigir alcoolizado e em alta velocidade. Não satisfeito, repete o mesmo com o caçula sem observar a lição...
Chico, que tudo observava, ouviu o benfeitor encerrar:
- Por favor, guarde o talão de cheque. No mundo, o seu dinheiro compra quase tudo, mas no plano espiritual, o único capital é o amor.
Chico, com sua baixa estatura física, ficou enorme em virtude da irradiação do mentor; e o homem, aparentemente grande, encolheu.
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