terça-feira, 1 de setembro de 2015

As três revelações divinas


O homem comete muitos erros por julgar temas amplos, valendo-se, tão-somente, do superficial. O adepto, verdadeiramente, convertido ao Cristianismo, não pode ignorar o trabalho hercúleo de Moisés no seio do judaísmo. Citar a Lei de Talião[1], como se ela resumisse o espírito do trabalho mosaico, é um grande equívoco histórico e, sobretudo, espiritual. A revelação, obtida nas rochas do Sinai, foi inaugurada pelos artigos pétreos do amor. Se a população hebraica ignorou o chamado divino e preferiu se vestir de parafernálias teológicas, o enviado de Capela[2] não deve ser responsabilizado, porque os dois primeiros mandamentos celestes já estavam à disposição dos corações humanos. Prova marcante dessa essência encontrasse, até hoje, nas odes inspiradas dos profetas do Velho Testamento. "Um pequenino se acha nascido para nós, e um filho foi dado a nós, e o nome que se apelidará será Deus Forte, Pai do futuro século, Príncipe da Paz. O seu império se estenderá cada vez mais e não terá fim" (Isaías, 9:5,6).  Apesar da resistência tribal e guerrilheira que mantinha a idéia insana de um Deus vingativo e exclusivista, o esforço das hostes sublimares foi recompensado; uma vez que nascia na paisagem, deste orbe, o sentimento monoteísta.
A base da religião estava sedimentada no decálogo[3]. Faltava, pois, um Farol Singular, que pudesse iluminar a antiga tábua da lei e exortar o povo a compreensão dos escritos em sua pureza genuína. Séculos depois de Moisés, a chegada de um Rei (jamais visto) modificava a atmosfera da Terra. No livro Boa-Nova, o amigo espiritual, Humberto de Campos, conta-nos que, à época, “o grande império do mundo, como que influenciado por um conjunto de forças estranhas, descansava numa onda de harmonias e júbilos, depois de guerras seculares”. Antes mesmo de nascer, o Menino-Luz, anunciado nas profecias, higienizava a aura do planeta com a Sua notável aproximação.
Trinta anos se passaram desde que o brilho da estrela-guia norteou a caminhada dos Reis Magos ao encontro do Messias, segundo a tradição bíblica. Era chegado o momento. Jesus começava a divulgação da mensagem eivada de beleza espiritual.  Antes daquela hora suprema para o futuro da Humanidade, muitos filósofos, em civilizações milenares, escreveram, falaram e praticaram o amor, mas somente o Doce Rabi da Galileia viveu tudo o que diz respeito a essa emoção divinal. Através dEle, os aflitos ouviram o Sermão da Montanha, viram gestos de profunda compaixão e presenciaram a prova da renúncia máxima no holocausto da cruz. Quem fizera tanto por uma gente pobre e simples em tão pouco tempo? Absolutamente ninguém. O Evangelho[4] já estava entre nós...
[5]O Cristo ensinou a todos nós o valor de se combater o pecado, mas amar, sem limites, o pecador; deixou claro que não há sentido em mergulhar no amor de Deus, se as criaturas não canalizá-lo para o seu semelhante; retirou das mãos homicidas a faca dos sacrifícios, pois a partir do instante em que o sangue do Cordeiro Divino foi espargido no calvário, não eram mais precisos os rituais bárbaros para se chegar ao Sagrado; provou que o verdadeiro pastor tem cheiro de ovelha e recusa-se a ficar, isolado, em cima de um púlpito, assoviando lições não vividas e mostrou que quem não ama só enxerga defeitos, porque se limita ao presente; enquanto, a alma que ama vê qualidades e enxerga potenciais, haja vista que acredita na capacidade imanente do ser humano de evoluir. Dentre infindáveis lições, o Mestre também mudou a relação do religioso com as liturgias templárias, ao dizer: “entra no teu aposento e, fechada a porta, orarás a teu Pai que está em secreto” (Mateus, 6:6).
Jesus deu prova viva do não-fundamentalismo. Embora, enorme conhecedor das leis judaicas, Ele não aceitou o argumento dos sacerdotes. Utilizou-se, no fundo, das codificações clericais para escapar das perguntas capciosas que almejavam derrubá-Lo. Ao passo que o totalitarismo tentava abraçar, como se fosse possível, as coisas de Deus, o Cristo visitava lugares, onde o poder instituído não queria estar: ao lado de paralíticos, cegos, surdos, mendigos, prostitutas, adúlteras... O que Lhe motivou a consolar os supostos amaldiçoados, segundo o olhar daqueles que amam o privilégio? Narcisismo, ego, aplausos. Não, nada disso. Numa síntese: caridade, o amor em ação. 
O Mestre, que conhecia a intimidade do plasma das estrelas, comprimiu – em gesto humilde – a Sua Luz esplendorosa a fim de não nos ofuscar e se utilizou dos recursos possíveis da cultura e da natureza, ambas peculiares a Galiléia, para se fazer entender naquelas simples parábolas. Mas, não nos enganemos: “as palavras dEle eram sopro espiritual ao encontro de narinas de barro”(Haroldo Dutra Dias). Por isso, muitos ainda não o compreendem, e a Besta do apocalipse retarda a aurora de um novo domingo pascal no cenário do Terceiro Milênio.
 Sob a anuência imperialista de Roma, a Igreja Católica se intitulou como interprete única dos textos bíblicos ao se valer da Segunda epístola de Simão Pedro. O pescador de Cafarnaum anotou “que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação, porque nunca, jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo” (Pedro, 1:20,21). À luz da fé raciocinada, essa imposição autoritarista se desconstrói. O grande mártir do Cristianismo convocou o trabalho coletivo quando escreveu “que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação”.
Em 1870, o Concílio Vaticano 1º decretou a infalibilidade do Papa. Reza a carta dogmática que o líder do Clero não erra em “decisões definitivas no campo da fé e da ética”, além de ser o sucessor de Pedro e o líder entre todos os apóstolos de Jesus. Os homens que se opusessem a determinação, dentro da igreja, seriam excomungados. Se lesse, mais atentamente, a primeira epístola de João, talvez, o Sumo Pontífice recuasse em sua intenção, tal a clareza do argumento: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (João, 1:8); mais à frente, o discípulo, bem-amado, dá outra lição exemplar: “Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (João, 4:12). Por que, pois, tanta encenação cerimonial e luxo se o convite à participação, no concerto divino, está condicionado ao amor?
A respeito da miopia que, apenas, enxerga os tesouros de César, o apóstolo Tiago comenta: “porque o sol se levanta com seu ardente calor, e a erva seca e a sua flor caem e desaparece a formosura do seu aspecto; assim também se murchará o rico em seus caminhos”[6] (Tiago, 1:11). Na mesma carta, ainda pode-se ler: “A religião pura e sem mácula, para com Deus e Pai, é esta – visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tiago, 1:27). Nessas expressões de elevado cunho moral, os cristãos ouvem um apelo em direção à caridade, à vida simples e à reforma íntima, como práticas superiores aos atos externos.
Os catedráticos rechaçaram uma experiência puramente espiritual. Amantes das insígnias sacerdotais, eles arrumaram formas de conciliar a água santa do Evangelho com as impurezas do mundo, cujo Mestre afirmou ter vencido. No entanto, o regato cristalino, se colocado em contato com o lodo, irá ser contaminado; e ao observar as correntezas, ninguém se lembrará de que a sua nascente é pura. Transcorridos 2015 anos, ainda permanecemos presos aos grilhões teológicos com a mesma dúvida da mulher samaritana – Onde adorar a Deus? E com a maior boa vontade, Jesus permanece repetindo: “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João, 4:24).
Foram longos os períodos em que o artificial triunfou sobre a essência, contudo os desígnios do Criador não podem ser encastelados em calabouços monásticos. Graças a Providência, o Consolador Prometido veio a estas plagas terrenas para pedir: “escutai-me. O Espiritismo, como antigamente minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande que faz germinar a planta e elevar as ondas. Revelei a Doutrina divina e, como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: Vinde a mim, todos vós que sofreis!”(O Evangelho Segundo o Espiritismo)
 Enfim, o Espírito de Verdade que o mundo não podia receber estava entre nós. Em 1857, Allan Kardec divulga a primeira edição de O Livro dos Espíritos e submete ao crivo inteligente das massas à mensagem dos Imortais. Nesse período, o genial codificador orientava-se pela voz do espírito São Luiz, que o acompanhou, de perto, na jornada de elaboração do pentateuco espírita. O nobre mentor confirmou “que os espíritos não vinham, pois destruir a religião, como alguns a pretendem, mas, ao contrário, (...) vieram sancioná-la por provas irrecusáveis”, através de expressões “sem alegoria para dar às coisas um sentido claro e preciso, que não possa estar sujeito a nenhuma interpretação falsa”. (Questão 1010 de O Livro dos Espíritos)
O Espiritismo transformou o paradigma de religião. Muitos cientistas e intelectuais têm urticária quando ouvem falar sobre esse termo. O atavismo histórico do espírito reencarnante o remete a eras medievais; e, num século como o atual, de conhecimentos atômicos e cosmonáuticos, as idéias arcaicas causam enorme repulsa. O ser pensante vê, nelas, uma ameaça a sua sabedoria tão arduamente conquistada. Com a Doutrina dos Espíritos, tudo muda. A visão se expande, rompe as fronteiras obscurantistas do dogmatismo e percebe, maravilhada, um Deus das galáxias.
A iluminada doutrina esclarece ainda o fenômeno das vidas sucessivas. No livro A Gênese, Kardec afirma que “com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletariado, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher”. Posta a candeia sobre o velador, a idéia de superioridade de povos e raças desaba perante a Justiça Soberana.
 Obviamente, a Terceira Revelação torna o caminho dos homens mais difícil ao classificar o bem como uma prática diária e de difícil execução, conforme já nos alertara Jesus ao falar que “estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para vida, e são poucos os que acertam com ela”. Daí, não causa espanto que a França, o berço de Kardec, e o restante da Europa, o velho continente, tenham ignorado o som da trombeta e o coro dos anjos. Crêem eles, até hoje, que Jesus veio curar os males do corpo, e não, os paralíticos da alma, que desembarcam no plano espiritual inertes devido à densidade de seus perispíritos (Nosso Lar, André Luiz). Mas, a vaidade humana não é capaz de abafar os Espíritos do Senhor. João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, Sócrates, Platão, Fénelon, Paulo de Tarso e inúmeros outros não vieram, de tão longe, à toa. Se os europeus dormem, a exemplo dos apóstolos no Jardim das Oliveiras, o Espiritismo deveria migrar para o solo em que encontraria condições de proliferação. Impossível, aqui, ignorar o médium Francisco Cândido Xavier e os benfeitores que o auxiliaram. As obras básicas deram corpo espiritual à doutrina e os mais de 400 livros psicografados, por Chico, ampliaram a aura dos ensinamentos, tornando maior o seu alcance.
Através do médium, o espírito Emmanuel convocou os corações, atentos, ao pacto de amor do Evangelho primevo e costurou, em inspirada literatura, as diferenças entre “atividade religiosa” e “serviço divino”. Na obra, Agenda Cristã, outro benfeitor, André Luiz, alertou as mãos, ávidas por benesses, sobre a necessidade de se afastarem dos holofotes da fé publicitária e vazia, ao dizer que “perdendo venceremos a batalha humana, cedendo obteremos os recursos de que precisamos, libertando conquistaremos os outros, suportando resistiremos na tempestade, sofrendo teremos mais luz (...)”.
Uma conquista formidável, que merece destaque:
 O Jesus que a Doutrina Espírita nos apresenta é um Jesus que está, a anos-luz de distância, do Jesus que a Humanidade conhece. (Haroldo Dutra Dias).
O mundo lê os evangelhos, e o que vê? Um galileu, vestido em túnica branca, filho de um carpinteiro com uma dona de casa. Então, vem o Espiritismo e repete a pergunta: “O que você vê?”. E o adepto estudioso responde: “vejo, simultaneamente, o Artesão Divino, o Artista Sideral, o Sublime Peregrino, o Psicoterapeuta de Todos os Tempos, em resumo, o Governador Espiritual do Planeta Terra”.




[1] “Olho por olho; dente por dente”.
[2] Constelação de onde vieram diversos espíritos, que reencarnaram na Terra primitiva a convite de Jesus. Naquele período, a maioria dos habitantes de Capela já vivia em clima de profunda fraternidade. As almas que vieram para o orbe terrestre perturbavam a harmonia do ambiente. Mesmo intelectualmente avançadas, elas apresentavam considerável retardo moral. Desse fato, resulta a Teoria dos Anjos Decaídos presente na Bíblia. Porém, graças a Misericórdia do Pai, muitos daqueles irmãos cumpriram a tarefa de auxiliar o progresso da Terra e, quites com a Lei de Causa e Efeito, ganharam a permissão de voltar para um mundo mais feliz.
[3]  A Primeira Revelação
[4] A Segunda Revelação.
[5] As idéias do parágrafo foram organizadas a partir de uma palestra de Haroldo Dutra Dias – expositor espírita, que, em recente trabalho, traduziu os Evangelhos do grego para a Língua Portuguesa.
[6]  Não há problema algum com a riqueza material, desde que ela tenha origem honesta e seja empregada como recurso divino.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Em busca do Sol...

“Assim, ele dizia: A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o assemelharei? É semelhante a um grão de mostarda...”. (Lucas 13:18-19)

A semente traz, em si, o projeto magnânimo de uma árvore. Com o seu DNA divino – que no porvir lhe conduzirá à belas florações – o minúsculo grão encara o escuro e solitário seio da terra. A partir daí, dá-se a sua luta gloriosa para haurir nutrientes, muitas vezes escassos, a fim de enraizar, em definitivo, as bases da vida que almeja. Quando surgem os primeiros brotos, rompendo o solo bendito que lhe serviu de berço, a semente vislumbra o campo imenso a que se destina. É o início do seu êxtase. A metáfora da individualidade humana que vence as enormes intempéries da existência ao mergulhar no seu “eu profundo”, resgatando, nos recônditos do Espírito, a essência divina que, nela, foi depositada. A terra escura – como analogia ao ego, dínamo das nossas atuais emoções – é a cruz da semente. A tarefa à qual ela foi chamada a cumprir para, por méritos, ser banhada pela luz solar, símbolo do Evangelho, que, para os homens, assim como para todas as obras da criação, é o amor infinito e a sabedoria suprema de Deus.
Vencendo o egoísmo que faz a consciência viver, apenas, para alimentar os seus caprichos, o homem rompe “a casca do eu” e põe a Lei Divina no centro de suas expectativas e tal qual a árvore cresce, em linha vertical, rumo às paragens dos montes celestes. Nutrida pela seiva da caridade, a alma – na sua jornada evolutiva – passa a doar bem-aventuranças, em forma de frutos, sementes e sombra acolhedora, como testemunho da obra de Deus na sua intimidade. Surge, então, na Galileia das nossas vidas – colorida pelos mais belos jardins do sentimento, a exemplo da época de Jesus – a Boa Nova do Reino.

Com Jesus...

“Pois onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou no meio deles” (Mateus 18:20).

    Não raro, interpretamos esta mensagem consoladora do Mestre sem analisarmos os nossos propósitos. Esquecemos que, um dia, Jesus perguntou a certo doutor da lei: “o que está escrito?” “E como lês?”. Recitar as passagens bíblicas é atitude corriqueira em milhares de casas religiosas espalhadas pelo mundo. Agora, retirar VIDA das Escrituras divinas – trazidas ao nosso orbe – pela linguagem humana, poucos deram conta de fazer. Seria muito simples que um amontoado de gente se reunisse em determinado lugar, e ali, a paz do Cristo estivesse presente. Todavia, não é esse o cenário averiguado na realidade. Reunir-se em nome de Jesus é tarefa para corações que fazem do templo (religião) e da oficina (mundo) uma só casa; ou seja, onde quer que estejam, estudam e trabalham, com esforço, para que, na sua conduta, os semelhantes possam ler uma página do Evangelho. Em seu amor magnânimo, Jesus gostaria que, em todas as reuniões da fé, as portas fossem abertas para ele. Não as portas materiais com trinco e fechadura, e sim, as das almas sinceras que tratam pobres e ricos da mesma forma, que não se aproveitam da boa-fé do próximo, que não se põem acima do bem e do mal e que renunciam aos caprichos humanos para que a voz divina possa tocar os Seus filhos amados.
   Onde encontrar, então, a presença de Jesus? Na qualidade do ambiente, pois onde o Celeste Amigo se encontra, há alegria, esperança frente aos problemas, cuidado com o sentimento do próximo, palavras sadias, mentes renovadas para o bem, perdão das ofensas, poder de renúncia a serviço do bem-comum, sintonia com a espiritualidade superior, fé em Deus e na imortalidade da alma. Onde Jesus se encontra uma simples ameaça à felicidade e ao livre-arbítrio do outro é vista como aberração, uma vez que denota o afastamento da Lei Divina alicerçada no amor. O Cristo disse ser o Caminho, a Verdade e a Vida. O caminho exige alguém para caminhar. O Mestre estará sempre ao nosso lado, mas o trabalho na imensa jornada evolutiva depende do nosso próprio esforço. A Vida é um campo enorme e nele ninguém colhe o perfume do sândalo, plantando ervas daninhas. E a Verdade, conforme salienta Emmanuel, só chega “a ouvidos dignos”, porque nas palavras de Jesus – “Deus não joga pérolas aos porcos”.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O perdão

Então, aproximando-se Pedro, disse-lhe: Senhor, quantas vezes meu irmão pecará contra mim e o perdoarei? Até sete vezes? Jesus lhe diz: Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete. (Mateus 18:21-20).
Utilizando-se de uma expressão idiomática do hebraico – "setenta vezes sete" – o Cristo estende ao infinito a necessidade do perdão. Para o julgo comum, o ato de perdoar é sinal de fraqueza, mas para alma que vibra nas estações da caridade, esquecer a agressão recebida é a oportunidade de vivenciar os postulados do Mestre e se libertar das algemas dos sentimentos inferiores. Se a justiça humana age, não raro, com intuito de aniquilar o infrator, a Justiça Divina encontra-se no mesmo patamar da misericórdia, porque a Lei de Amor é o ponto máximo de toda Legislação Celeste, e a criação universal encontra-se mergulhada nela. Sob o alicerce do perdão, o agredido haure forças para se sublimar, enquanto o agressor, diante de tamanho exemplo de fraternidade, vê-se convidado à
tarefa da redenção.
Como bem afirmou Desmond Tutu, o Prêmio Nobel da Paz e primeiro Ministro de Nelson Mandela: " Uma sociedade que se vinga cria uma nação de mutilados".

Um coração que ama

“Assim que comeram, Jesus diz a Simão Pedro: Simão, [filho de] João, tu me amas?” (João 21:15).

   A pergunta é emblemática. O Mestre poderia indagar ao discípulo quanto às suas mais eminentes virtudes intelectuais. Entretanto, assim não procedeu. Porque se fosse esta a intenção – reunir cérebros brilhantes segundo os preceitos do mundo – o Cristo teria formado o círculo íntimo dos seus apóstolos com os doutores do Sinédrio ou os catedráticos das universidades de Tarso e Alexandria. Em verdade, sabia Jesus que o Reino de Deus é a obra divina no coração dos homens. À época, Jerusalém estava impregnada pelo fermento farisaico. O povo perdia-se nas cerimônias exteriores dos templos luxuosos em intermináveis rituais de adoração. Israel afastava-se, cada vez mais, da pureza espiritual dos ensinamentos trazidos ao planeta pela sensibilidade dos profetas. Os sacerdotes inventavam lugares santos, ignorando que toda Terra é altar sagrado de Deus. Enquanto, o dogmatismo, o falso raciocínio da superioridade de raça e as interpretações fundamentalistas dos Escritos Divinos não conseguiam extrair o espírito da letra e nem separar o joio do trigo. Prova desse cenário é a indagação do Cristo a Nicodemos, quando lhe falara da necessidade de “nascer de novo” para ver o Reino de Deus: “Tu és Mestre de Israel e não sabes estas coisas?” (João 3:10).
Além dos desvios morais do povo escolhido para erguer a fé universal no Deus único e na sua Lei de Amor (vide os dois mandamentos inaugurais do Decálogo), o orbe terrestre era dominado pelos anseios imperialistas de Roma, que naufragava, retumbante, na missão que lhe fora dada de encurtar as fronteiras nacionais a fim de semear o espírito de fraternidade entre as nações. Na aurora dos dias primevos da Era Cristã, outra pátria também se encastelava nas obras arquitetônicas erguidas graças à inteligência maravilhosa dos seus sábios. Da suntuosidade do Areópago ao palco de espetáculos do anfiteatro, passando pelo monumento de beleza do Pathernon, a Grécia respirava os ares das filosofias negativistas e contentava-se com os mitos de seus deuses antropomórficos e humanoides.
Desta forma, religiosos, cientistas e filósofos – apegados às conquistas transitórias – alimentavam o sonho de um eldorado materialista sem compaixão, amor e caridade. Mal sabiam eles que as construções, puramente humanas, não resistem ao imperativo do tempo. A seu turno, cada civilização contribui, de algum modo, para o progresso da Humanidade. No entanto, nada é capaz de livrá-las das Leis da Natureza do mundo corpóreo. A matéria se transforma. Os séculos varrem castelos, catedrais, arenas e impérios, levando-os ao pó da terra. Por conhecer as verdades presentes nas mais distantes estrelas, Jesus reuniu homens simples, afastados das pomposas atividades do pensamento, porém mansos de coração, e deu a essas almas devotadas, cheias de vigorosos ideais de renúncia, o encargo de levar o Evangelho aos aflitos esquecidos pelos governos sociais. Assim, não mais o “Senhor dos Exércitos”, sedento de guerras fratricidas, e sim o Pai que ama os Seus filhos e é capaz de buscá-los, eivado de misericórdia, como narra o Rabi da Galileia, em linguagem simbólica, na Parábola do Filho Pródigo. Com Jesus, o temor a Deus, símbolo da fé rústica, é substituído pela manjedoura do amor. A Boa Nova, necessária frente aos velhos conceitos religiosos, vinha trazer notícias auspiciosas do Mundo Maior.
   Então...
    ... Pergunta o Emissário Celeste:
“Simão, [filho de] João, tu me amas?” Ele lhe diz: Sim Senhor, tu sabes que te amo. Jesus diz a ele: apascenta as minhas ovelhas. (João 21:15).
O Cristo ensinou a todos nós o valor de se combater o erro, mas amar, sem limites, aqueles que erram; deixou claro que não há sentido em mergulhar no amor de Deus, se as criaturas não canalizá-lo para o seu semelhante; provou que o verdadeiro pastor tem cheiro de ovelha e recusa-se a ficar, isolado, em cima de um púlpito, assoviando lições não vividas e mostrou que quem não ama só enxerga defeitos, porque se limita ao presente; enquanto, a alma que ama vê qualidades e enxerga potenciais, haja vista que acredita na capacidade imanente do ser humano de evoluir. Dentre infindáveis lições, o Mestre também mudou a relação do religioso com as liturgias dos templos, ao dizer: “entra no teu aposento e, fechada a porta, orarás a teu Pai que está em secreto” (Mateus 6:6).

ESCRAVO?

... Ao ver um grupo de jovens entregue às ruas e dominado pelo vício do crack, o pai comentou com o filho de 12 anos:

– Veja só aqueles rapazes, tornaram-se escravos das drogas...

O menosprezo materializou-se nas breves palavras, carregadas por uma artificial superioridade.

O menino, de sua baixa estatura, ergueu a cabeça para alcançar os olhos paternos e, utilizando-se de um raciocínio incomum, assim falou:

– É verdade, papai, o senhor tem razão. Mas, além desse, há outros gêneros de escravidão.
E enumerou-as: 

– Há os escravos da maledicência que não conseguem olhar a vida dos outros sem se utilizar do desdém.
– Há as personalidades enclausuradas pela violência, incapazes de dar uma resposta sem ignorância.
– Há os corações amordaçados pela mágoa, fraquejando ante o exercício do perdão.
– Há as mentalidades egoístas que desejam tudo para si e encontram-se no calabouço do ego.
– E há também os filhos do orgulho que não admitem VIDA fora de suas concepções.

O homem, altamente personalista, enxergou no filho um espelho de sua alma e nada averiguou que pudesse envaidecê-lo. Em segundos, pesou-lhe na consciência os valores ministrados na educação doméstica. Por fim, abraçou a criança, colocando-a junto ao peito como que agradecido pelo facho de luz aceso na sua consciência. Uma voz silenciosa o convidava para tarefa da reforma íntima.

A lucidez de uma mãe

Cabisbaixa, a jovem, exibindo a beleza dos seus 18 anos, desabafou junto ao coração de sua mãe: – A partir de hoje, não ajudo mais ninguém. As pessoas só me procuram por interesse, quando estão precisando... Cansei de fazer o papel de boba e, sempre, "levar pela cara".

Compreendendo a tensão do momento delicado, a alma materna trouxe ao peito a filha amada e afagou-lhe os cabelos num transporte de ternura, doando-lhe cuidados, típicos do amor.
Cessado o pranto de revolta, a voz doce emanou por toda casa:

– Minha filha, o simples fato de cultivarmos afeição por alguém já representa um tesouro divino do sentimento. Se está tão revoltada, é porque fez o bem esperando algo em troca, nem que fosse uma palavra de gratidão. Ajuda e passa. No minuto seguinte, pode haver outra pessoa necessitada de sua compaixão. Caso estacione, cheia de lamúrias e com ego ferido, chegará à minha idade sem esperança na vida. Quem se dá ao luxo de decepcionar-se, irremediavelmente, passa por esta Terra amando pouco e acumulando mágoas. Viver não é está sob posse de um corpo físico. Vida são experiências dignas de Deus.

Comentário: nas famílias, aprendemos a construir edifícios da intelectualidade para competir com o mundo e exibir láureas acadêmicas, no entanto, raramente, somos orientados a educar o sentimento. E desse enorme descuido, nascem as doenças psicossomáticas como a depressão e as diversas síndromes, entre elas, a do Pânico. Ninguém mergulha no calabouço das emoções porque não domina a ciência dos cálculos ou a arte literária. Adoecemos, emocionalmente, pelo abandono do maior patrimônio do homem: o sentimento.